domingo, 5 de dezembro de 2010

Clarissa e Roberta

Por alguns instantes Clarissa quis se sentir grande, maior do que seu ego, como se sentisse sua força brotando de algum lugar por dentro. Queria sorrir, explodir, gargalhar e apontar, como criança. Mas como confiar em uma pessoa que te abandona no momento de maior latência do seu amor por ela? Não, ela não podia se deixar abalar por aquele velho sentimento.
- Então é isso... Você vem me procurar porque ficou carente?
- Não, linda... Se fosse só carência teria me casado, ou buscado qualquer outra pessoa, não acha? - era a primeira vez que Clarissa tinha sido agressiva e tão séria com Roberta, e isso a perturbou.
- Não consigo confiar em você. - respondeu secamente Clarissa.
- Naturalmente. Já imaginava isso, mas gostaria de te fazer uma proposta, mesmo assim.
- Hã...
- É simples: não me proíba na sua vida, esteja aberta, deixa eu me aproximar de novo. Você não tem que estar comigo, mas pode estar comigo também. Entende?
- Tá. Você me propõe que nos reconheçamos novamente, é isso?
- É. Sem juízo de valores, ok? - e Roberta finalizou a frase com um lindo sorriso.
- Impossível. - Clarissa respondeu entrando na brincadeira, com um sorriso que antecipava sua resposta.
- Ah, mas tenta...
- Tudo bem. Vamos ver no que isso vai dar.
Clarissa tinha medo, mas a possibilidade de estar com Roberta novamente era irresistível, não podia negar o frio na barriga, aquela sensação de borboletas no estômago de novo. Tinha o dia todo de folga, e Roberta parecia não ter mais nada pra fazer também.
- Tá com fome, Beta?
- É...agora eu tô.
- Vamos naquele japonês aqui perto?
- Como a gente fazia quando você se mudou pra cá! A gente comia yakissoba todo dia...Lembra? - e Roberta soltou uma leve risada.
- É. - Clarissa também riu.
Os olhos das duas se cruzaram mais uma vez, os risos se ouviram, se tocaram. Elas sabiam perfeitamente o que aquilo representava. E nenhuma das duas quis afastar aquilo que estava renascendo ali, se readaptando a uma nova realidade.
Alguns meses atrás, quando Clarissa tinha conseguido sair da república onde morava, foi morar ali, naquele apartamento pequeno que parecia não conter sua felicidade de se ver gerindo sua própria vida, com maior privacidade pra ela, mais espaço para os seus sonhos. Roberta também tinha adorado a ideia, pensava em ir morar com ela um dia, se empolgou com a decoração, ajudou a pintar, ajudou na mudança, e, na época, o fato de estar ali presente, esboçando alguma espécie de futuro, parecia encantador.
Ficaram em silêncio, por um breve instante, se perdendo uma nos olhos da outra, quando Roberta acariciou de leve o rosto de Clarissa. Elas sabiam que estavam com seus pensamentos em um mesmo lugar, na mesma lembrança, na mesma felicidade remota.
- Quem vai levantar primeiro?
- Quem tiver mais coragem.
- Isso mesmo...Levanta aí! - e Clarissa começou a fazer cócegas em Roberta, fazendo-a levantar.
Definitivamente aquela tarde estava parecendo um comercial de margarina no intervalo de uma feliz história de novela das 20h.
Depois de muito romance e gracejos, levantaram-se, vestiram-se e foram no japonês, já que não tinha a menor condição de cozinhar qualquer coisa na casa de Clarissa. Vida de solteira, sozinha a maior parte do tempo, possivelmente explicaria a desarrumação e a falta de prática com o fogão e as panelas. Comer sozinha é chato, cozinhar pra si própria é chato.
Saíram do apartamento, passaram pelo porteiro fofoqueiro, mas dessa vez Roberta deu mãos com Clarissa, numa atitude que surpreendeu ambas. Andavam com tranqüilidade, esperando encontrar um cenário digno de Disney nas ruas, com pássaros cantarolando em volta das princesas, em copas frondosas de árvores imponentes, mas só tinha barulho de carros e buzinas e um sol que sempre faz lembrar aos cariocas o porquê da música “Rio 40º”. Andaram por quase 10 minutos, chegaram no japonês, onde podiam pedir milhões de coisas, mas pediram o mesmo yakissoba de camarão que pediram tantas vezes antes. Era um bom momento, estavam felizes, e relembrar coisas agradáveis era ideal.
Na hora do pedido, uma nova surpresa:
- Pra viagem, e rápido.
- Roberta, que isso... Pára pra comer! – disse Clarissa assim que o atendente se afastou.
- Tenho o dia livre pra você, e quero aproveitá-lo da melhor maneira possível. – respondeu Roberta com intenções pouco puritanas.
Iniciaram um papo descontraído sobre suas lembranças e algumas intimidades, até que o yakissoba chegasse, depois de algum tempo. O atendente ouviu um trecho da conversa das meninas quando foi levar o tal prato a elas e enquanto pagavam, não pode deixar de soltar um sorrisinho, que foi percebido por elas, mas Clarissa não se importava, já Roberta percebeu as claras – e más – intenções do rapaz. Não satisfeita, decidiu proporcionar um espetáculo completo: beijou em pleno restaurante aquela menina ruivinha e tímida que tanto desejava.
O espanto foi geral, mais o maior e mais saboroso foi o de Clarissa. Nunca, em todo o tempo que estiveram juntas antes, Roberta tinha tomado tal atitude. Nem de mãos dadas costumavam andar, e agora, nesse reencontro, beijos em público em plena luz do dia, num restaurante. É...Roberta mudou.
O atendente não sabia o que fazer, o beijo foi ficando mais quente, mais envolvente e Roberta estava adorando aquele desconforto, aquele constrangimento que causara no ambiente, descobriu então que a felicidade dela não podia ser paga ou trocada pelo seu silêncio e inércia. Se descobriu capaz de tomar essa realidade em suas mãos e enfrentar o que tivesse por vir. Sabia que não seriam flores o que estaria esperando por ela, mas teve a certeza que a partir daquele momento sua forma de ver o mundo, de se ver tinha começado a se transformar e ela estava adorando.
Clarissa, mesmo sem entender, também gostou do beijo e da atitude. Preferiu não falar nada, só dançar conforme a música, sabia que seria complicado e difícil pra família conservadora de Roberta e julgou inapropriado trazer questionamentos tão densos e pesados à tona naquele momento.
O beijo se deu, e foi interrompido por Clarissa, antes que entrassem as duas em combustão.
- Beta, seu troco tá te esperando e a comida tá ficando fria. E agora quem quer voltar logo pra casa sou eu.
- Ah... Cê tá com pressa? Por que? - disse Roberta, quase sussurrando, com um tom um pouco rouco, sugando o lábio inferior de Clarissa.
- Em casa eu te digo. - respondeu mais maliciosamente ainda Clarissa.
Pegaram o troco, a comida e abandonaram aquele restaurante com a sensação de que implodiram o lugar. Era tão pequeno, tão aconchegante, com suas cadeirinhas e mesinhas de madeira, espaço altamente simétrico, geométrico e seus frequentadores e trabalhadores exalando aquela impressão de regularidade, formalidade, seria comparável a um mosteiro se não fosse tão ocidentalizado. Definitivamente, naquele espaço a felicidade delas não ia caber. Nas ruas, no percurso de volta, não queriam mais se sentir como em um mundo encantado da Disney, queriam sentir aquele calor, de 40º, de dentro pra fora e de fora pra dentro. Se apressaram, quase correram pelo caminho de volta pra casa. Entraram no prédio afoitas, Clarissa abraçou Roberta por trás e foram andando assim, grudadas. Lógico que o porteiro viu, mas dessa vez elas riram dele, não ligavam, qualquer coisa parecia menor do que aquele momento e tudo era menos importante. Clarissa tinha medo de estar sendo usada em um momento de carência de Roberta, tinha receio de nunca mais vê-la, sabia que as promessas que foram feitas antes não foram cumpridas, o que mudaria agora? Não tinham o menor compromisso mesmo... Mas deixaria pra pensar nisso em outra hora, aquela hora era de agir, e aproveitar.
Roberta estava descobrindo a delícia de ser desejada e desejar tão violentamente e tão publicamente, estava excitada com a possibilidade de descoberta desse novo mundo. Queria mais, queria gritar. Estava começando a entender o “sair do armário”.
No elevador, entraram mas não apertaram o 4, Clarissa colocou Roberta de frente pra parede do elevador, beijava sua nuca, afastava seus cabelos bem levemente, provocava mais, mordia o pescoço, as mãos desciam e subiam pelas costas, acariciava os braços, decidiu abrir as pernas de Roberta e encaixar uma das suas naquele vão ali. Roberta ria, com ar de Noelle Vavoom, totalmente extasiada, realizada. Aquela provocação quase inocente a deixava com ainda mais vontade. Deixou o yakissoba no chão quando Clarissa desceu suas mãos pelos braços dela, entrelaçando seus dedos e colocando-as contra a parede. Tudo o que Roberta podia fazer era suspirar e gemer, mas não o fazia, estava se segurando pra quando subissem pro apartamento. Enquanto isso, Clarissa ia se arrastando no bumbum de Roberta, fazendo um leve rebolado, com a sua perna no meio das dela, e com suas mãos prendendo as dela. Sentia tesão, e sentia crescendo dentro dela, o calor aumentava, a vontade crescia, os movimentos se intensificavam, a vontade crescia mais, a medida em que aquela situação de dominação se intensificava, os movimentos dos quadris das duas tornavam-se mais forte um contra o outro, Roberta rebolava mais, parecia uma dança, um pedido com o corpo do que queria que fosse feito.
Clarissa largou Roberta e apertou o 4. Esperou o elevador começar a subir, encostou as costas na outra parede, Roberta abaixou pra pegar o yakissoba de forma provocante: desceu sem dobrar os joelhos, manteve o bumbum empinado e se virou pra Clarissa, antes de se levantar. Então se encostou de frente pra ela, na outra parede e ali ficaram se olhando, esperando o elevador subir.
Clarissa enfiou a mão no bolso, procurando a chave, pra evitar perder tempo procurando por ela no corredor. O elevador subia e parecia lento demais pra fome delas. Uma olhava a outra e sabiam que assim que entrassem no apartamento todas as expectativas seriam superadas, todo o enorme prazer seria satisfeito. Roberta nunca foi tão fogosa quanto agora, e Clarissa nunca se sentiu tão à vontade.
O elevador parou, quarto andar, abriu a porta, as duas saíram, caminhando leves pelo corredor, como se estivessem preparando uma armadilha, uma pra outra. Clarissa pegou a chave, abriu a porta, Roberta entrou no pequeno apartamento levemente bagunçado pelo rompante sexual anterior.
Roberta colocou o futuro almoço sob a mesinha da cozinha americana, abriu a geladeira pra tomar um copo d’água bem gelado, estava quente por dentro e por fora. Enquanto isso Clarissa fechava a porta, tirava a roupa e ligava um ventilador pequeno próximo ao pé da cama, no quarto minúsculo que só cabia a cama de casal e o armário.
Roberta olhou o relógio, viu que dali a uma ou duas horas o sol ia começar a baixar para se pôr, não sabia se devia dormir ali, nem o que diria a sua mãe quando a procurasse, mas ia ficar, porque sabia o que ia acontecer, sabia que era bom e sabia que ia gostar. Foi se indo para o quarto, onde Clarissa já estava a esperando.
- Vem, Beta. – disse Clarissa, só de calcinha e sutiã na cama desarrumada.
- Não quer beber água, comer, nada? – Roberta foi andando na direção de Clarissa, abrindo o zíper do vestidinho.
- Depois. – respondeu Clarissa, já sentando-se na cama.

(continua)

Ela sabe que é verdade.

Nós terminamos, mas porque não nos desligamos ainda?
Aonde está o problema?
Por que não conseguimos conversar? Só gritar, brigar, e nas horas vagas, uma ou duas palavras de carinho nos intervalos. Isso é muito ruim...Ruim demais!
Você me diz que a gente vai casar, ter filhos. Eu juro que eu queria acreditar nisso como antes, queria mesmo sentir o meu coração batendo forte, descompassado como foi nos últimos anos.
Não dá pra voltar no tempo...
Eu queria te amar como eu te amava no início, queria rir das suas gracinhas, saber o limite entre brincadeira e humilhação, te proteger, te olhar dormindo, brincar na sua barriga, andar de mãos dadas com você na praia, olhar o céu, ver o sol nascendo, se pondo. Queria ter feito aquela viagem que não saiu, e você não sabe como isso me incomoda. Queria sentir aquele desejão, quando vc beijava minha nuca, me deixava alucinada.
Tudo foi se acabando, a gente foi deixando o tempo passar, estávamos ocupadas demais nos exigindo o mundo, brigando, nos ofendendo. E eu te amava tanto, tanto...que só de pensar chega a doer.
A gente terminou, nos falamos pouco, quase nada. Meus amigos, cadê? Eu me pego tendo inveja, raiva e às vezes ciúme de você. A gente se distanciou, mas a gente não quer isso, é torturante. A vida tá muito ruim sem você, pelo menos fica do meu lado.
Fico aqui, fazendo de conta que tá tudo uma maravilha, quando na verdade só quero desabar e chorar no seu ombro, quero - como hoje - um abraço demorado, um ouvido pra eu poder desabafar, um ombro pra eu desabar. Vejo você feliz, tendo sucesso em tudo, conquistando amizades novas, fazendo coisas novas, falando coisas que nmunca disse antes, valorizando seus bons momentos. Você tá linda, tá com um ar mais jovem, alegre, tá magrinha, seu cabelo tá perfeito. Eu estava assim também quando você tava mal, assim que a gente terminou. Me sentia uma criança, livre. Agora esse furor de liberdade passou. Agora eu vivo me contendo, querendo sumir, ligando pra vc quando a paciência está por um fio, ou quando o meu coração tá explodindo de tristeza, pedindo ajuda pra coisas que nem fazem sentido, usando qualquer coisa como desculpa pra te ouvir, pra estar perto da pessoa que mais me deu valor, atenção, carinho, que foi fiel o tempo todo, que me deu uma chance, que me permitiu ser quem eu sou de verdade, e que não tem vergonha de mim por nada, nem vergonha de si própria. Como você mesma disse "eu gosto de estar com quem eu amo, gosto, e eu gosto de que as pessoas saibam quem é essa pessoa, e que vejam como essa pessoa me traz felicidade".
Eu realmente te amo, e você pode considerar esse post uma declaração de amor (ou quase isso), e é por te amar que faço qualquer coisa pra ver esse sorrisão enorme no seu rosto. Você sorri com o coração, com os olhos, com a pele, até com o fígado se bobear.
Você aprendeu a viver, depois de anos te dando esporro pra você ser mais séria, responsável, organizada...
O fato é que a gente faz tanto parte uma da vida da outra que não conseguimos mais ficar sem esses momentos.
Isso leva sempre a uma idéia de volta, de que a gente precisa dar a vigésima sétima chance pro nosso relacinamento amoroso reacender aquela chama veeeeeeeeeelha.
Mas não dá, simplismente não dá. E você sabe disso.
A gente não se ama como mulher mais, talvez tenha um pouco de atração, uma saudade de fazer sexo, de sentir a pele-na-pele. E isso se mistura com todo o carinho e respeito que permeia a nossa tentativa de amizade, com rompantes de ira, e tudo mais.
Mas acho que não vai passar disso. Não posso falar pelo dia de amanhã, não posso dizer que nunca mais teremos nada, se tiver que ser, um dia, será. Mas acho que a gente tinha que trabalhar isso de outra forma.
A nossa probabilidade de dar errado é tão grande ainda, na verdade, a cada passo que ficamos mais distantes uma da outra eu percebo como a chance de erro é grande, infinitamente maior do que a possibilidade de sucesso. Pelo menos agora.
Não dá pra pensar em voltar...Senão vamos viver eternamente o pandemônio que vivíamos nos últimos meses de namoro:

"E se admitirmos que nosso relacionamento está acabado?
E nos mantivermos nele, mesmo assim?
Nós o aceitamos.
Nós brigamos muito.
Quase não transamos mais.
Mas não queremos deixar um ao outro.
Assim poderíamos passar a vida juntas.
Miseráveis.
Mas felizes de não estarmos separadas."

Não quero morar com você, nem namorar, nem ficar divagando como seria nossa vida de comercial de margarina se tentássemos novamente, para sermos infelizes para que possamos ser felizes.
Merecemos mais do que ficarmos juntas pelo comodismo, pelo medo de sermos destruídas se não ficarmos.

Se a gente tiver que ultrapassar os limites da amizade, de novo, pra tentar de novo, não vai ser agora, nem dessa forma. E muito menos vai depender dos outros.
Vai acontecer, se acontecer, na hora certa, da forma certa.
Enquanto a gente não tem a resposta, vamos nos manter na civilidade amistosa com que nos tratamos pra não ter chance de colocar até a amizade a perder, que é uma coisa que nem gostaria de pensar, porque eu te amo muito pra deixar vc sair de pertinho de mim de novo.
Some não, hein?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Clarissa e Roberta

A ânsia de Roberta era inquestonável, pela forma como saiu do carro.Quase quase tranca Clarissa lá.
Foram ao apartamento de Clarissa, estava uma belíssima tarde.O porteiro estranhou, fatalmente contaria às vizinhas e vizinhos.Clarissa teria percebido se não estivesse tão absorvida pelos passos de Roberta, sempre a sua frente, sempre a guiá-la, e Roberta não via a hora de sair daquele elevador direto pro apartamento da única mulher, na verdade a única pessoa, que a teria tocado de forma tão densa, tão marcante. "Por que eu não fiquei com ela antes? Por que? Burra! Agora vai ser tudo mais difícil" pensava Roberta enquanto entrava às pressas no elevador, e esperava impaciente por Clarissa e depois, pronto, o botão pressionado do 4º andar se acente e a porta do elevador então se fecha, e a agonia diminui um pouco mais, na proporção em que a tensão aumenta.

Chegam ao andar, andam mais uns pasos, 402.
- As chaves... - Clarissa procura, quase desesperada, na bolsa de pano de sempre, quando sente Roberta a abraçando por trás, colocando a mão bem devagar em seus bolsos da frente do short e tirando de um deles o pequeno molho de chaves.
- Aqui. - respondeu Roberta, em um sussurro ao pé do ouvido de Clarissa, que a tinha arrepiado completamente.Roberta já tinha passado pelos esquecimentos de Clarissa muitas vezes e sabia que ela sempre colocava as chaves nos bolsos, e mesmo assim, nunca se lembrava.
Tomando as chaves em sua mão, Clarissa abriu rapidamente a porta daquele pequeno apartamento.Assim que abriu, Roberta entrou tão rápido que quando se deu conta, estava em sua frente, mas do lado de dentro, movendo para Clarissa aquele corpo levemente moreno contido em um vestido bege, aqueles cabelos cheirosos e ondulados tocando aqueles lábios lindos, carnudos, expressivos, como o belo par de redondos olhos castanhos que a fitavam com uma expressão de urgência.
Clarissa deixou seu corpo pesar e só ouviu o barulho da porta se fechando em suas costas, enquanto a mulher que lhe tirava toda a inspiração indo embora um dia, estava ali novamente.Se virava, com um ar felino, como quem combina sensualidade e perigo, olhando fixamente em seus olhos.Clarissa chegou a achar que estava enchergando em slow-motion, mas ainda tinha rapidez suficiente para trancar a porta e largar a bolsa de pano em qualquer lugar.
Roberta sorriu.Tinha sentido um frio na barriga por aquele momento, tinha o imaginado algumas vezes, nunca exatamente como estava acontecendo agora.Estava surpresa, anciosa, aflita, uma miscelânia de sentimentos que só instigavam mais o prazer dela sob a outra ali, que agora estava vindo em sua direção, arrancou o tênis, menos um passo, o outro pé, menos outro, aí só tinha um palmo de distância no meio daquele megnetismo todo.Roberta abandona suas chaves no chão e se joga nos braços de Clarissa, que corresponde.
Mãos na cintura, pescoço, carinhos no rosto, sorriso bobo, os olhos se perderam, tudo parecia inacreditável, um sonho.Tanta coisa pra dizer, mas nada deveria ser dito, ninguém deveria desmerecer aquele momento grande demais pra palavras.
Clarissa estava imersa no sentimento que vinha lhe percorrendo corpo afora, colocou as mãos por baixo do vestido, sentiu a calcinha pequena que Roberta costumava usar, permaneceu explorando aquele corpo familiar, levantando cada vez mais o vestido, até tirá-lo.Roberta se lançou em beijos no pescoço de Clarissa, colocando as mãos embaixo da camiseta, subindo, se desvencilhando do sutiã inútil, logo a blusa foi menos um obstáculo e o sutiã também facilmente removido.Clarissa foi levando o corpo de Roberta pra cama, e lá jogou a morena, que a olhava pedindo que aquela espera terminasse.Clarissa tirou o próprio short, junto com a calcinha, e nesse momento Roberta suspirou, porque percebeu a beleza daquele corpo novamente, aquela pele branquinha e macia, delicada como porcelana.
Naquele momento fechou os olhos e sentiu o corpo de Clarissa em cima do seu, lento, e sentiu o cheiro dela, e se percebeu molhada, quando a coxa dela encaixou-se no meio das suas pernas.Então beijaram-se perdidamente, como se o tempo não existisse mais, um beijo molhado com leves sugadas de lábio de Clarissa, e algumas chupadas de língua e mordidas leves de Roberta, querendo provocar mais.
Os beijos desceram para o pescoço, uma parte da numa, um poquinho do queixo, e desceram um pouco mais, e aí Clarissa sorveu o bico daqueles delicados mamilos e adorava ouvir a respiração de Roberta começando a ficar ofegante.Os seios de Roberta eram lindos, redondinhos, nem grandes demais, nem tão pequenos.Cabiam nas mãos de Clarissa e ela adorava pegá-los, enquanto chupava um, acariciava outro, e podia ouvir um ensaio de gemido vindo de Roberta.
Era hora de continuar descendo com os beijos, e assim foi.Beijando a barriga, o umbigo, e então a virilha...Nessa hora Clarissa sentou-se de frente para Roberta, encaixou as suas pernas nas dela e a levantou, fazendo com que o corpo das duas estivesse bem colado.Roberta entendeu o que Clarissa queria fazer, ela queria que as duas se sentissem mais, que gozassem juntas, olhando uma nos olhos da outra, as duas se estimulando, se provocando, matando as saudades das sensações dos desejos.
Assim, sentadas uma de frente pra outra os carinhos recomeçaram, e então Clarisse rompeu o silêncio:
- Você vai sumir de novo antes que eu perceba?
- Não dessa vez.
- Não quero me consumir de novo à toa.
- Não vai.
- Quero entender ainda o que aconteceu antes, pra você ter desistido, mas... Depois de terminar o que começamos.
- Hahaha...Certíssima!
Clarissa beijou Roberta com mais vontade ainda, e Roberta gostou de sentir a língua dela invadindo sua boca daquela maneira tão incisiva, como se disputasse com sua própria língua aquele espaço.
As duas passevam suas mãos pelo corpo da outra, um verdadeiro balé sensual.Até que se tocaram onde tanto esperavam, e sentiram-se molhadas, pela espera e pela vontade, mais molhadas do que imaginavam estar.
Os beijos tinham algo de apaixonados, mas um certo grau de necessidade, e seus toques pareceram mais delicados num primeiro momento...Mas Roberta não se deteve muito tempo massageando o clitóris de Clarissa, passou a penetrá-la com força, com vontade, e Clarissa se sentiu convidada a fazer o mesmo.
Elas gemiam, gritavam, se contorciam de prazer, tentavam manter suas bocas ocupadas, mas a sensação de prazer era tamanha que não conseguiam mais controlar seus corpos, os músculos começaram a enrijecer, a respiração mais ofegante, gemidos mais altos, mais finos, e suas mãos não paravam aquele ritmo frenético de entra e sai, gira, mexe, mais fundo, mais rápido, mais forte, e mais alguns minutos depois, acabaram por desfazerem-se em êxtase, finalmente.
Clarissa olhou nos olhos de Roberta, como quem admirasse a Monalisa ou qualquer obra de arte do mesmo porte.Roberta deitou, e trouxe o corpo de Clarissa pra junto do dela.
- Fazia tempo que não me sentia tão bem assim... - disse Roberta.
- Se te fez falta, por que então...
- Não foi culpa sua, foi minha.Eu não ia ter coragem pra assumir isso. - interrompeu Roberta.
- Por que, então, ficou comigo e me fez acreditar que ia dar certo? E se não tivéssemos nos visto na Livraria, você estaria aqui?
- Na verdade eu tinha passado na Livraria pra comprar alguma coisa pra você e depois vir te visitar.Tenho pensado muito no que aconteceu.E achei que se você percebesse isso provavelmente me acharia uma idiota.
- Roberta, a gente viveu coisas muito intensas em muito pouco tempo, eu sempre tive a impressão de que ficou alguma coisa.E você ainda não respondeu por quê não ficou comigo antes.
- Eu...Faltavam 3 semanas pro meu casamento.
Clarissa sentiu sua gargante se fechando.Aquela mulher ali se colocava como heterossexual e era casada.Cada vez mais via como seria impossível ficar com ela, que era uma tolice sem tamanho ficar alimentando esses sonhos.
- E por que me visitaria agora?Seu marido sabe disso?
- Não tenho um.
Aquilo soou como música nos ouvidos de Clarissa.

(continua)

sábado, 6 de novembro de 2010

Clarissa e Roberta

Clarissa abriu os olhos.O tic-tac do relógio chamou-os atenção, 6:30h. "Ainda! Ah, não! Vou voltar a dormir...".
Não consegiu, apesar de querer.Sonhou com Roberta, mais uma vez.E acordou na hora errada.E não conseguia dormir porque lembrava dela, só lembrava, e só queria encontrar aquela fantasia no mundo real, tê-la novamente em seus braços, presenteando seus mais profundos desejos.
De lembrá-la sentia seu corpo pegando fogo da cintura pra baixo.E aquelas borboletas no estômago, aquele arrepio...Era excitante de lembrar, imagine se pudesse fazer de novo, e de novo e mais uma vez...

Até que não queria mais se torturar com aquilo.Levantou-se, foi direto tomar um banho gelado.Demorou 10 minutos, se enrolou numa toalha e olhou seu conjugado.Se pudesse definí-lo em uma palavra seria caos.Nas últimas semanas não tinha tempo pra mais nada, por causa do trabalho por meio período, depois Faculdade, e mais uma tentativa de pesquisa pra construção de um artigo, que depois de 6 meses viraria monografia.
Era sábado, tinha todo tempo do mundo.Foi ver um programa qualquer na TV e tentar arrumar aquela zona.E, dessa forma, em 4 horas conseguiu colocar sua casa em ordem, sem perder nenhum papel da pesquisa.
Foi pra cozinha, fez um sanduíche com o que sobrou da limpa que fez na geladeira, tomou a última cerveja, sentou e foi se sentindo cansada...olhos a TV ligada, falando sozinha...Roberta de novo.Se resvalasse um segundo os olhos em qualquer morena, iria imaginar Roberta, invariavelmente.
- Inferno! Preciso sair.

Comeu rápido, tomou um novo banho, colocou um short jeans, um all star qualquer, uma camisetinha com seu cordão habitual, seu óculos de grau meio retrô, ajeitou os cabelos agora tingidos de ruivo, pela metade, com a raiz mais o mais preta que conseguiu fazer com a tinta que tinha comprado.Foi pegar as chaves.
- Peraí...o chaveiro...cadê?
Procurou muito...mas depois da arrumação, descobriu q se achava mais na sua própria bagunça.Depois de uns 10 minutos de procura, finalmente achou. Foi embora antes que esquecesse onde ficava a porta.

Já fora do prédio, foi andando pra livraria mais próxima.Queria se entupir de alguma coisa que preenchesse sua mente sem ser pesado.Um filme novo, ou um livro de leitura fácil pra imaginação correr frouxa.Entrou despretenciosamente, foi pra seção de Antropologia, quase que por instinto.Correu os olhos, parava em autores clássicos, outros mais modernos, mas então se deu conta que não queria ler pra estudar, queria um livro que a aliviasse, e não um que a deixasse mais inquieta ainda.Deu a volta, foi pra outra seção de literatura mais "água com açúcar", quase foi parar na auto-ajuda, mas recobrou o seu objetivo na mente. Pegou um título qualquer "Desculpa se te chamo de amor", foi ler a contra-capa, mas tomou um susto.
- Psiu! Clarissa!
Olhou pra trás.Era tudo que ela queria ver, mas que não precisava.
- Roberta... - e só conseguiu formar o nome da sua musa em fonética depois de alguns segundos de estupefação.
- Então...Fazendo o que de bom? - Roberta parecia feliz, estava linda, mas Clarissa era muito suspeita pra considerar isso.
- Eu...tava...Tentando sair um pouco das minhas pesquisas, queria me distrair com uma leitura qualquer. - tentava disfarçar, mas tinha um medo absurdo que Roberta percebesse sua angústia em não saber o que fazer.
- Mas tão cedo assim? Nem é meio-dia! - Roberta ria naturalmente, mas na verdade ficou excitada por descobrir Clarissa ali, do jeitinho como ela adorava, totalmente atrapalhada, desatenta, com um ar de sempre perdida.
- Pois é... - riu timidamente uma Clarissa com mãos suadas - Eu preciso deixar essa mania de leitura.
- E como está indo o artigo, falando nisso? - Roberta estava louca pra sair dali com Clarissa, mas tinha que se conter.
- Ah, eu tô quase acabando! Nem acredito...Passei quase 2 anos pra montar uma coisa que poderia ter demorado tão menos tempo! Mas o trabalho me toma muito tempo, e sabe como é... - Clarissa não queria mais falar sobre nada, queria se perder naqueles olhos, perder o ar naquele beijo, mas tinha que se controlar.
- Poxa, que bom! Pelo menos você tá no final, né? Por que a gente não almoça juntas e você me conta as novidades?
- Por mim, tudo bem...
Roberta foi dirigindo-se pra porta e Clarissa seguia atrás, sem livro, e com um sorriso de canto de boca, que deixava-a mais nervosa, e as mãos suadas ficavam geladas.
- Eu tô de carro, tá ali na outra calçada.
Roberta atravessou a rua na frente, foi entrando no carro e Clarissa com seu passo um pouco mais lento e mil olhadelas nos carros que não vinham na pista, até atravessar e também entrar com ela onde tinham se beijado pela primeira vez, a algum tempo atrás.
Roberta ligou o carro, foi colocar o cinto, e a mão dela deu com a de Clarisse, ao memso tempo, no mesmo gesto.Foi um segundo pecioso.Os olhos sabiam já o caminho pra se encontrar, e as duas sabiam que isso era forte demais pra controlar.
Foi instintivo.Roberta pegou as mãos de Clarissa, sabia que estariam suadas, e talvez geladas, e que por isso mesmo Clarissa se sentiria envergonhada, mas pegou com firmez, como fez da primeira vez.Já não lembrava mais do motivo de ter desistido de Clarissa, não sabia por que tinha inventado aquelas coisas de viagem, outra pessoa, arrependimento.
Em meio a tanto esquecimento, puxou Clarissa pra si um pouco mais, ela também não estava mais segurando aquele desejo latente em seus sonhos, sua imaginação, seus lábios...Se sentia quente, sentia medo de sobrar, de perder de novo.Mas precisava deslizar naquela tentação e se entregar, por fim, a algo que lhe consumia por tanto tempo.
- Eu moro aqui perto...A gente pode comer depois? - disse Clarissa antes que algo pudesse acontecer ali, e antes que pudesse se arrepender.
- Agora. - respondeu decididamente Roberta, já saindo do carro.

(continua)

sábado, 18 de setembro de 2010

Lara, Lara...

Pra quem não sabe (e também pra não gerar maiores especulações), Lara era uma amiga muito próxima, onde sempre, em nossas conversas, surgiam frases lindas, versos incríveis, enfim, pura inspiração. Ela adorava a palavra e eu também, eram sempre inspiradoras nossas conversas...

Tem um bom tempo que nos falamos... Anos!
Da última vez que conversamos, ela estava grávida...O filho dela deve estar enorme agora! rs

E, num momento "revival", cheirando a naftalina, como blusa da bisavó guardada no guarda-roupa desde o casamento da sua mãe, lembrei de algumas conversas anotadas e, achei por bem colocá-las publicamente aqui.

Quem sabe ela não lê e por acaso nos achamos, encontramos e conversamos, como fazíamos aos 15, 16 anos?

Para Lara:

Tens a força que eu nunca atingirei...
Tens a dor...
Tens a frieza de teus passos...
Falas com voz aveludada palavras que ferem, mas ambas anulam-se.
És ridícula e inabalável.
Inalcansalvelmente sonhadora


Para mim:

Te perdes nas palavras, tuas, somente tuas
Também eu me perco nelas - embora em nada me perca
E em ti - embora jamais te tenha encontrado
Admiras e repudias - somos, nisso, iguais
Me decifras, como ninguém
Justamente porque não me ousas decifrar
Tens sonhos... de parte deles, corta, porém, as asas - sorumbatismo em tesoura
És intensidade
Surrealismo
- Intensa e sutil

Para Lara:

Uma vez achei que te podia olhar nos olhos,
Uma vez achei que até podia provar de teu amargo féu,
Deixei de pensar e quando vi eu já o tinhas.
Foges tanto que acabo por encontar-te!
És meus espelho e toda minha dor está em ti,
Portanto sangre por mim, Deusa Vaporosa!
As boas aventuranças foram-se com o vento
E eu aqui estou, novamente, á deriva.
Desiludida e insanamente alegre.
Não preciso de ajuda para saber que estou presa aqui, mas logo minhas asas cicatrizarão e eu poderei voar livremente pra fora deste maldito poço

Logicamente que o conteúdo está completamente gótico. Paciência, era assim como eu era na adolescência. Boba, sonhadora e gótica. rs

Fico por aqui, lamentando muito pela demora na escrita.

A UFF DECIDIU QUE NÓS NÃO VAMOS PAGAR NADA!

Entre os dias 30 de agosto e 3 de setembro, a Universidade Federal Fluminense teve oportunidade de presenciar um momento bastante interessante e importante também: um plebiscito, que fez parte do processo estatuinte da universidade, teve voto universal e decidiu sobre a gratuidade na instituição. Muita gente se perguntou do porquê disso, afinal, a UFF é federal, pública e gratuita certo? Bom, não é bem assim que as coisas funcionam... Atualmente, a UFF abriga mais de 150 cursos de pós graduação pagos: que utilizam espaço e recursos da universidade, com professores concursados – muitos de dedicação exclusiva -, e cobram mensalidades que podem chegar até 1.500 reais. Além da cobrança, esses cursos representam um foco de corrupção: não há prestação de contas – motivo pelo qual a universidade vem sendo investigada pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas da União – e são administrados pela FEC, que é uma fundação de apoio que não precisa fazer licitações ou dar maiores satisfações de como gerencia o seu dinheiro.
Como fez parte da reformulação do Estatuto – processo que já se prolonga há 12 anos, e decidiu levar as divergências à voto da comunidade – a decisão era entre duas propostas de texto, um elaborado pela Comissão Estatuinte que previa a gratuidade do ensino em todos os níves e sob responsabilidade da União; e outro apresentado pela Comissão de Sistematização do Conselho Universitário, que garantia a gratuidade apenas para os cursos de graduação e pós graduação scrito sensu, excluindo dessa forma as pós lato sensu. O plebiscito movimentou a universidade: muitos estudantes, professores e servidores usaram adesivos pela gratuidade, com o porquinho rosa que se tornou o mascote da campanha, e colaboraram divulgando através de redes sociais como o twitter. O pleito teve um total de 13.248 votos válidos – mais que a última eleição para reitor -, o resultado das urnas, apuradas durante todo o dia 4 de setembro na quadra da Faculdade de Direito, apenas comprovou o que clima já indicava: com 86,7% dos votos no Sim, a comunidade acadêmica decidiu por uma UFF 100% gratuita.