Ela passou no meu trabalho, numa terça ou quarta, já nem me lembro mais.
Estava combinado de irmos bebericar alguma coisa no Osbar, ou o Bar do Rock, na Lélio Gama mesmo. Eu sai do trabalho mais cedo naquele dia, comi minha pipoca habitual na barraquinha do Vaguinho, e ele sempre perguntava como tava a vida, e eu sempre respondendo, desabafando um pouco com ele, e ele contando sobre o dia de trabalho também. Até que vinha a pergunta "Vai pipoquinha pra melhorar o dia?" e eu sempre respondia que sim, e ele já sabia "Sal, caprichada no bacon, né?" e era mais um sim, dessa vez com um sorriso, porque bacon pra mim é o êxtase.
Ela já tava lá, com aquela roupinha de escritório, me esperando.
Fui até ela, ainda comendo minha pipoca, demos aqueles dois beijinhos no rosto e fomos pro bar.
Naquele dia, só tocava Frejat e Barão Vermelho. Mas tocou tanto que eu cheguei a cansar. E olha...é difícil.
Falamos amenidades, o Natal estava chegando, então dei um presente muito particular pra ela, ela gostou bastante. Contou que tava indo viajar, contou dos pais, contou da namorada nova, e finalmente, me perguntou da minha vida. Não deu tempo de responder, porque meu celular tocou, e era a minha namorada ligando, dessa vez. Falei com ela, disse com quem estava e senti uma onda de ciúmes chegando naquela ligação. Chamei ela pra dar um pulo no bar, não só pra conhecer a minha amiga, mas também pra tirar o estigma e dar uma melhorada nos ciúmes que ela tava remoendo e tentando disfarçar sem sucesso. Desliguei o celular com a resposta da namorada: "Ah, mas eu vou mesmo!" e preferi deixar quieto.
Minha amiga não é exatamente apenas uma amiga. Já ficamos, já transamos (e era ma-ra-vi-lho-so, inclusive. Fico sem ar se me lembrar. Juro.), já tentamos namorar...mas eu estava bêbada demais pra compreender a seriedade daquele sentimento. E quando me dei conta daquele sentimento ali, já era tarde. Eu escolhi ficar com a namorada. Não fiz mau negócio (como se gostar de alguém fosse negócio...que patético), sou apaixonada pela minha namorada, amo mesmo... Mas é inevitável evitar o clima de tensão sexual entre eu e essa amiga. É automático, e beira o incontrolável, e dá pra perceber nela a mesma vontade, o mesmo tesão e eu lembro de sentir ela molhada nos meus dedos, no meu sexo, dentre outras loucuras e sofreguidões... E ao mesmo tempo que me sinto mal de lembrar daquilo, me sinto derretendo por dentro, queimando da cintura pra baixo, arrepiando espinha acima e latejando com uma leve umidade onde não deveria estar.
Eu estava aliviada pela ligação da minha namorada, sinceramente. Sabia que não ia poder fazer cagada. Por mais que eu bebesse ou quisesse, com ela ali, ia me conter até a última gota de suor escorrendo pela minha testa. Mas enquanto ela não chegasse ali, eu não relaxei. Fui comprar cigarros, fumei desesperadamente, tentando não sexualizar nenhum assunto, mas era inevitável. Ela falava da namorada dela, que ela queria mudar de sexo, que ela era trans, que toma hormônios, que é ativona/caminhoneira, e que na verdade ela não se incomoda com nada disso, mas no fundo sente muita falta de ser ativa, e blá blá blá... eu já não estava mais ouvindo, só me vinha as imagens dela sendo ativa comigo, e de como era bom.
Aí, em uma tentativa de me manter calma, eu ria nervosamente, tragava mais forte o cigarro, virava o copo de cerveja. E ela ria, sempre... Porque percebia obviamente o tamanho do meu esforço em me conter pra não voar nela. Daí então ela teve uma ideia: toda vez que eu virava o copo, ela virava também. Mas parar de falar em sexo...nada!
Ela acendeu um daqueles cigarros mentolados dela, com aquele cheiro maravilhoso, que me lembrava a casa dela, a cama... minha cabeça estava fervilhando. Levantei e fui no banheiro, usando a minha cistite como desculpa. Normalmente eu sentia vergonha da cistite, mas naquele momento ela me apareceu como uma salvação.
No banheiro quase tomei um banho na pia... molhei mãos, pescoço, rosto. Gastei muito papel pra me enxugar depois, respirei fundo e voltei pra mesa. Minha namorada ligou, falou que tava indo com um amigo nosso que trabalha com ela e eu sorri aliviada de novo.
Voltamos a conversar, mas dessa vez sobre um filme que queríamos ter assistido juntas, Elvis e Madona, um filme brasileiro, que fala sobre o relacionamento de uma travesti com uma lésbica, muito bom (mas tá mais pra comédia romântica do que pra filme cult, na verdade). Então não percebi mais o que eu estava falando, porque cobrei a presença dela no filme (que passou no último dia de um festival, e eu fui assistir com a minha namorada). Por que raios eu fiz isso?
Ela riu, e disse que não deu realmente pra ela ir, mas que a maioria dos amigos dela tinham ido assistir e que já tinham contado pra ela algumas coisas sobre o filme... E desse momento em diante, me tornei uma pessoa irracional. Ela flertava comigo nitidamente e eu flertava de volta. Tudo isso sem encostar nela.
Virei mais uns copos de cerveja, fui mais umas 4 vezes ao banheiro tentar me acalmar, mas eu sabia que eu estava prestes a fazer merda. Voltei pra mesa, e continuamos a conversa insinuativa, minha namorada ligou e avisou que estava indo pra lá. Caguei. Confessei pra minha amiga que não tava mais aguentando ver ela ali, falar sacanagem e não pensar em como o nosso sexo era delicioso, ao que ela me respondeu prontamente que sentia o mesmo... e aí rolou uma breve insinuação dela: "a gente podia marcar alguma coisa pra você ir lá em casa...tem um quartinho sobrando." e é lógico que eu respondi o que eu não devia: "Tem mesmo? Então dá pra alugar? Tá cobrando quanto?" e rimos freneticamente. As duas visivelmente excitadas, fazendo sexo por telepatia, os dentes rangendo, as mãos atrapalhadas e os cigarros acabando.
Ela disse: "Acho que não ia dar certo você morando lá em casa, comigo... vai que eu chego bêbada e tarada, invado o quartinho, e te ataco?" ao que eu, cachorramente, respondi "bem, não seria estupro, porque seria consensual". Pensei na hora "que ótimo! porque não combinar logo a data que você vai trair a sua linda namorada por quem você é apaixonada? marca no aniversário de namoro logo, sua IMBECIL".
Tinha que ME parar de alguma maneira... O celular toca, minha namorada chega, com o nosso amigo, que prontamente entendeu todo o caos (pq ele sabia de todo o trelelê que eu tive com essa amiga antes e da tensão sexual e etc) e sentou-se entre as duas. Minha namorada sentou-se do meu lado e eu a recebi com o beijo mais cheio de desejo que eu pude. Estava molhada, a cabeça a mil, queria arrastar ela pro banheiro a qualquer custo, mas isso seria muito suspeito e minha namorada não é idiota. Aquilo ia me render uma DR de DIAS! Isso sem falar em uma possível greve de sexo.
Bebemos mais, minha namorada querendo ir já no segundo copo e eu querendo ficar por conta de todos os copos que já tinha virado antes dela chegar... Meu amigo tentando criar um clima agradável, e a minha amiga ali conversando com todos, rindo, e de vez em quando me olhando de um jeito que só eu entendia e excluía a todos.
Aquela situação torturante ainda durou um tempo, um par de horas talvez, mas o resumo da ópera: a amiga levantou, pagou sua parte, se despediu de todos com beijos no rosto e votos de um ótimo fim de ano e um excelente começo do próximo e eu fiquei por último. Na minha vez ela falou no meu ouvido "quando quiser, o quartinho tá lá". E foi.
E ao invés de eu ficar quieta, não... Pego o celular do meu amigo pra mandar uma mensagem pra amiga, provocativa, lógico.
E cá estou eu, confessando a minha falta de capacidade de segurar a onda e resistir a uma tensão sexual. E pior: ainda amo minha namorada, ainda estou com ela, mas todos os dias pensando nessa amiga, no quartinho e naqueles beijos.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
domingo, 11 de dezembro de 2011
Professora Fulana?
Passando pela praça, perto de casa mesmo, vi uma silhueta que não me era estranha... Achei que conhecia aquela mulher que parecia ter uns 45 anos, morena, de cabelos castanhos, algumas rugas e um corpo digamos... em dia.
Continuei meu trajeto, indo em direção a ela.
Depois de alguns segundos, percebi uma outra mulher andando mais rápido a alcançando e tocando seu ombro. A tal mulher que eu achei conhecer virou-se e deu um beijo na boca da outra. Assim, só estalinho mesmo. Na hora ainda cheguei a cogitara hipótese de ter pegado aquela mulher.
Alguns segundos depois me dei conta de que aquela mulher q eu achei q conhecia, de fato conhecia. Conhecia MESMO. E sabia também que ela era professora... Porque me deu aula quando eu estava na 8ª série (hoje 9ºano).
Bateu aquele mind fuck super forte nesse momento. Vi meu mundo cair, minha vida escolar passando pelos meus olhos... E, peraí... Ela era casada!
Não, gente... Nada impede que uma professora casada se descubra lésbica e vá viver a sua paixão, seu amor, sei lá. Mas eu tinha tanta convicção que ela era hetero e que nada no mundo abalaria essa verdade que eu me senti chocada por uns instantes.
Elas estavam se aproximando de mim, e eu ali, indo em direção a elas, com uma expressão fingida de plenitude e calma. Abrindo um sorriso lentamente, esperei que ela passasse por mim pra falar aquela palavrinha temida (até por mim mesma): Professora Fulana?
Notei que ela deu uma leve empalidecida com o que foi ouvido e vi um sorrisinho amarelo em seus lábios, mas mesmo assim, ela havia parado e foi simpática. Contei como estava na faculdade, falei mais umas duas ou três coisas, amenidades, lógico. Ela se tranquilizou, ou se acostumou com a minha breve presença e falou umas coisas bobas também, além de ter apresentado a moça que estava com ela: Deixa eu te apresentar, essa é Cicrana. Cicrana, ela foi minha aluna!
Falamos mais algumas coisinhas, nada demais. Me despedi delas com aqueles 3 beijinhos de bochecha-com-bochecha e fui na direção oposta a delas.
Não pude deixar de me sentir feliz, por ter reencontrado ela e também por ter percebido que ela se achou também, e estava realizada (pelo que pareceu).
Só fiquei puta com uma coisa...
Meu gaydar esta quebrado...Merda!
sábado, 10 de dezembro de 2011
Uns madrugam, outros Madruga's.
Tem uns 3 semanas que estou trabalhando de "pião" em uma loja no centro do Rio.
Nessa loja, meu cargo é vendedora, mas eu também tenho que limpar uma parte da loja, buscar coisas na rua, organizar o estoque, ser o caixa, e repor as peças já vendidas.
Pego as 8:30h, mas preciso chegar antes pra não ser considerado atraso e, com isso, ficar sem vender por meia hora. Saio, na teoria as 16h, mas na realidade não tenho hora pra sair. Pode ser que eu saia as 17h, 17:30h...vai saber?
Acordo as 5 da manhã quando durmo na casa dos meus pais, tomo banho, pego ônibus e vou dormindo e batendo a minha cabeça na janela do ônibus até lá. Ainda não aconteceu de ter passado do ponto, mas sei que um dia vai acabar acontecendo.
Já cheguei atrasada duas vezes, e também já faltei.
No meu ambiente de trabalho todos querem vender, e vender muito, e para tanto, uns passam em cima dos outros, com a intenção clara de prejudicar mesmo. E ninguém lá tem pudores para confessar isso.
O gerente me parece meio aéreo, não sei se por conveniência ou pelo seu jeito de ser mesmo... E tem horas que de tão curto e grosso acaba sendo rude demais.Ele não brinca e nem ri com ninguém, só com o vendedor responsável. O vr (ou 99) é um cara mais tranquilão, e um pouco mais aberto a ouvir os subordinados. Também briga, também é exigente, mas de uma forma que chega a ser amigável (ou algo muito próximo disso).
Em resumo, não gosto do trabalho, embora me dê bem com todos de maneira isolada, já peguei pessoas falando mal de mim e além disso não é o tipo de emprego que me deixa exatamente segura.
Mas, lógico, não dá pra abandonar porque preciso mesmo de dinheiro.
Esses dias tava pensando na minha situação pessoal e na de alguns amigos meus ditos vagabundos, acadêmicos que no máximo vivem de bolsa.
Obedecendo um certo modelo comparativo, só sei dizer que se eu pudesse escolher, seria vagabunda acadêmica e adepta do Madruga's way of life. Mas o tempo passa, o dinheiro é cada vez mais necessário e infelizmente para mim a independência é uma questão de sobrevivência no momento.
Palmas pra Madrugagem!!! Felizes de vocês, Madruguistas. Aproveitem.
sábado, 15 de outubro de 2011
Bah, Tchê, Tri e um pouco de "chileno"

Passei dias ouvindo aquele sotaque bem cantadinho, com todos os vícios de linguagem e regionalismos que se tem direito. Ouvi um espanhol chileno com aquele excesso de vogais marcadas na oralidade da fala, daqueles que chega a arrepiar, a dar nervoso. Nada incompreensível. Nada desagradável. Mas me fez pensar em como o carioca é "exxxxxculhambado" com seus excessos verborrágicos, cheios de palavrões e intimidades, cheios de hipérboles quase inimagináveis, e de uma malemolência digna de sambistas malandros de Lapa mesmo.
Fiquei pensando na linguagem e me dei conta de como a cultura regional, a identidade mesmo do gaúcho, do carioca ou do chileno, se distinguem a começar pela linguagem. A estrutura da gramática é sempre soberana, semi-imutável, uma dama de ferro. Mas a oralidade da língua, o processo de significação e ressignificação dos símbolos e correlatos das palavras, todos os detalhes da casualidade da fala, do dia-a-dia, tudo ficou nítido pra mim.
Não dá pra alterar a postura cultural de um índio mapuche, por exemplo, mesmo que ele estivesse no Rio e soubesse sambar no carnaval, ou que estivesse nos pampas, de bombacha, espora e boleadeira, descansando da cavalgada tomando chimarrão.
Tanto o conceito de Langue e Parole, utilizado por Saussure; quanto o de Energeia e Ergon, utilizado por Humboldt estavam ali, e eu me dando conta aos poucos. Não que não tenha percebido os mecanismos agindo antes, mas fiz uma relação da linguagem com a fala e a cultura, sistema de crenças, geografia, historicidade...Enfim, passaram-se tantas coisas pela minha cabeça que ficaria impossível descrever todas.
Mas, uma das mais marcantes foi a sensação de que através da fala, da reprodução daquele conjunto de signos, símbolos, poderíamos desenhar personagens, como se fosse um desenho animado. Como se pudéssemos prever o estereótipo através do sotaque correspondente ao local.
O espanhol que se fala no Chile obviamente é diferente da Argentina, da Bolívia, do Uruguai... E, sinceramente, dá pra fechar os olhos e imaginar uma pessoa de pele levemente escura, com umas roupas meio grossas, de lã, andando em Lhamas, ou seja, o estereótipo do índio Mapuche.
O português do gaúcho é uma coisa mais fria, mais organizada, e sem tantos palavrões. Dá pra ver a "justeza" do gaúcho, a atenciosidade e a coragem também. Parece um gaúcho da fronteira, tocando um vanerão na "gaita" (pra gente sanfona).
O português do carioca bem arrastado, bem "que se foda", cheio de "x" e com muitos palavrões me faz pensar num cara moreno de praia, bermuda e havaianas, óculos de sol, andando arrastado por Madureira, por exemplo.
É tudo estereótipo, tudo senso comum, conhecimento basal... Que foi produzindo uma imagem, aos poucos construída com a associação dessas leituras culturais associadas à fala e à cultura. Isso aí que eu comecei a achar incrível.
E aí foi isso... Bons dias de flerte com o sotaque gostosíssimo de PoA e alguns momentos confusos com o espanhol chileno. E vou reclamar nada! Foi é muito bom.
Dessa quase uma semana, dá pra tirar lições de ouro: ainda tenho muito que ler sobre antropologia da linguagem... E também fazer um recorte menor, mais específico, da próxima vez.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Desesperança
É tanta mágoa, é crueldade, é descaso, é tristeza, é angústia...
Acontece ao mesmo tempo, ou assim que um acaba, começa o outro.
Não tem mais liberdade, não tem mais dinheiro...Então não tem mais querer.
Não tem mais mãe, nem pai, não tem conexões com pessoas.
Não tem amor, não tem sexo, paixão ou tesão.
O pensamento frio, racional, ganhou do sentimento.
Não há nada que não seja lógico, exato ou aceitável.
Hoje a desesperança já pode acontecer.
Se tinha que ser a última a se ir, então que se vá.
Não há mais nada a se perder.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Brasileiro médio?
Ser brasileiro médio ou não o ser não quer significar nada mais e nada menos do que mais ou menos politizado, atento e participativo na sociedade, do ponto de vista político. Também não dá pra exigir que uma sociedade onde a globalização prevalece, a necessidade por tecnologia, velocidade de informação e praticidade é um apelo cada vez maior, e nem sei se devo chamar de apelo, pois mais me parece um grito exigente que torna a se repetir tamanha a necessidade da coisa.
A sociedade está se integrando, se apropriando de conceitos e comparando/conhecendo culturas com um vídeo, um link, um click. Dá pra cantar músicas do pop coreano sem ao menos saber o que representa aquilo pras pessoas de lá, como se fala o idioma e o que significa. Mas nada tão impossível de se descobrir também, basta dar um "google".
Então, nesse mundo tão informatizado e integrado, que te permite checar informações de toda a política externa, todas as cotações de todas as bolsas ao redor do mundo, suas expectativas, especulações, projeções, ou ainda te permite ver todas as mazelas do mundo, a fome, as guerras, os atentados, os crimes de ódio e mais tantas enumeras coisas que podemos fazer sem tirar nossas bundas de nossas cadeiras... Então, esse mundo aí, que funciona 24h virtualmente e está a disposição de muita gente, seja em casa, nas lan houses, ou seja lá como, é completamente novo, desconhecido e cresce exponencialmente. A velocidade é cada vez mais privilegiada, o conceito de ter substituído pelo ideal de ser, a quantidade é mais bem vista do que a qualidade, carreiras acadêmicas cada vez mais exigentes, onde há cada vez mais a necessidade do macro conhecimento sobre os microcosmos e micro assuntos que permeiam os corredores das nossas vãs filosofias, esse excesso de especializações é cada vez mais necessário. Passamos a viver em um mundo onde 140 caracteres definem muita coisa, ou nem isso.
Mensagens instantâneas são muito mais agradáveis do que e-mails longos, enfadonhos, por vezes incoerentes...porque, na minha opinião, até pra escrever bastante é preciso foco, e nem todo mundo tem tempo sobrando pra se perder com isso. Aliás, hoje em dia, qual o sentido de "time's money"?? Acho que chegamos no ponto "Money's time" da modernidade (ou pós-modernidade, como queiram, mas tenho uma ojeriza a essa palavra justamente porque dá pra se perder em seu significado, conceitos e sua representatividade...e cá pra nós eu não sou tão genial assim que meu conhecimento abarque com totalidade e clareza o termo).
Humildemente eu faço a seguinte reflexão: por que é, então, nessa sociedade tão modificada, que não quer pensar, só aglutinar informações; que não quer ler um livro, mas quer ler um blog; que quer saber muito de uma coisa só ao invés de algo sobre bastantes coisas; que quer ser coletivo no virtual, mas individual na realidade... eu teria que esperar um comportamento político completamente envolvido e engajado com as causas coletivas como em uma "polis" grega?
Acho que o engajamento acontece da mesma maneira, mas não é algo que una a todos. Os indivíduos, imersos em lixo cultural, em um bando de badulaques e adulações de acúmulo, propagadas pelos mesmos meios que proporcionam - ou proporcionavam - mais saber e entretenimento (rádio, depois televisão, depois internet, e depois só Deus sabe, ou melhor, só o Google sabe) não tem o menor pudor em se individualizar e saudar cada vez mais o capitalismo e dar graças a todas as maravilhas tecnológicas e inúteis que podem comprar, dão graças ao dinheiro, porque com ele se compra de um tudo, de sexo a pessoas, de um Nike a uma latinha de Coca-cola.
Essa discussão de valores não cabe a mim, que acho mesmo que cada um tem seu preço, e os que dizem que não o tem devem ser muito ilibados mesmo e viver uma vida bastante minimalista, com nada além do necessário. A discussão é: por que a sociedade tem que se comportar como os gregos em suas antigas "polis", que se reuniam frequentemente em torno de suas ágoras pra discutir seriamente a política vigente, as guerras, os senadores depostos, os eleitos? Tinha corrupção, a matança por poder era muito mais velada, mas nada declarada, mesmo em meio a república, ou a Res Publica, não existia a democracia como se vê hoje, aliás, se a gente for começar a pensar em democracia, acho que no nosso segundo reinado, lá com o Pedro II tínhamos mais políticos liberais do que com a instauração da república, desde aquela república que gostamos tando de chamar de velha, como se não prestasse mais, com marechais, espadas enferrujadas e canhões que eram lixo bélico europeu e só serviram de enfeite, passando pela era Vargas e seu fascismo velado, JK e sua megalomania com o lema de "50 anos em 5" que assustadoramente engana pessoas até hoje, a tão polêmica ditadura, e depois com a "redemocratização" até os dias atuais, com bandalheiras e achincalhes com o dinheiro público dos impostos. Aí fica aquele sentimento: poxa, mas é essa a democracia que eu quero MESMO? Com esse Judiciário frouxo e esse Executivo comprável desse jeito? Assim o Legislativo nunca vai mudar, nunca vai deixar de fazer altas farras com o dinheiro do "povo". Mas... Quem disse que todo mundo se importa com isso? As pessoas não TEM QUE se importar também, ué. Eu me importo, tu te importas, ele está cagando veementemente pro Brasil. E eu com isso?
Enfim... só acho uma falta de argumento e acúmulo a cerca do debate político - por mais irônico que isso soe - reclamar das pessoas que não se envolvem politicamente chamando-as de "brasileiros médios", como em uma tentativa de desqualificar o papel do cidadão que não se importa, como se ele fosse menos brasileiro, ou abaixo da média, um cara fora da "crème de lá crème" dessa hierarquia imaginária que uns intelectuerdas insistem em pregar e propagar pelas redes sociais afora. Isso é um ato falho, isso é pensar com uma corrente conservadora que acha, por exemplo, que índio tem que continuar no meio do mato andando nu e falando um idioma que a gente nem sabe o que é. Esse pensamento é digno dos políticos gregos, dos "cidadãos" gregos que definiam em suas discussões públicas os rumos da Polis. É pensar numa época onde não se tinha outro significada pra Política além de público. Era a época do pensamento macro, das induções...
A nossa era é moderna, não é mais antiguidade clássica. Aqui se tem individualismo, utilitarismo (meio mal aplicado), velocidade de informação, e um excesso de liberdade que pode acabar por desenfrear-se e perder-se o controle por completo - mas isso não é necessariamente uma coisa ruim, porque se até o caos tem uma ordem, uma regra, no Brasil não seria difícil não ter.
E, por incrível que pareça, a maioria dos que conheço virtualmente não vão ler isso. Mas, francamente, se você só escreve pensando em quantos vão ler, isso te faz um "brasileiro médio", né? Uma pessoa "acima da média" escreve com uma preocupação de quem vai ler, como vai ler e como será o debate.
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